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Ju Ferraz

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Lições de um casamento real: o futuro é mais simples e mais misturado

Ju Ferraz

21/05/2018 20h21

Mais de 3 bilhões de pessoas assistiram ao casamento real no sábado, dia 19 de maio, que uniu o príncipe Harry e a atriz Meghan Markle, em Windsor, cidadezinha a alguns quilômetros de Londres. E eu era uma delas. Da minha casa, em São Paulo, eu posso dizer que vi uma das coisas mais lindas dos últimos tempos. Um bálsamo em tempos de tanto ódio, incertezas e crises – políticas, econômicas e pessoais.

Assistindo à noiva afrodescendente, plebeia, atriz, ativista social, feminista, ao lado da mãe, uma mulher negra, instrutora de yoga, com piercing no nariz e dreadlocks atravessando a multidão de mais de 100 mil pessoas para chegar à Capela de São Jorge, onde estão enterrados mais de 10 membros da realeza britânica, uma das mais antigas e exclusivistas do planeta, para casar com o número seis da linha de sucessão da tal família, foi o exemplo mais claro de que o mundo mudou. E que bom que mudou.

Doria Ragland, a mãe da noiva, príncipe Charles, o pai do noivo, e Camila, a madrasta

Desde antes do casamento, alguns questionamentos e discussões já mostravam o simbolismo por trás da união. A escritora Tati Bernardi, por exemplo, questionou: "Que feminista é essa que larga a carreira pra casar com Príncipe? Prefiro a Diana que abandonou o Príncipe pra ser feminista!" . As respostas a esse comentário foram inúmeras e plurais, como é o movimento feminista. Mas eu faço uma outra pergunta: até quando a gente vai precisar ter de justificar nossas escolhas? Se Meghan, feminista de carteirinha e convicção, quer casar com um príncipe e abrir mão de sua carreira e embarcar em um casamento real, por que a gente deveria questionar a sua escolha? Mulheres devem, antes de tudo, poder escolher o que querem ser. Inclusive serem princesas – ou duquesas.

Segura de si, Meghan introduziu nesse casamento real, ainda, vários outros simbolismos que permearam toda a cerimonia, deixando bem claro que ela pode, sim, se submeter aos protocolos, mas não sem antes questioná-los e tentar dar a sua pitada. Entrou sozinha na igreja, fez com que sua mãe, Doria Ragland, ocupasse um lugar de destaque na cerimônia, optou por um vestido simples, sem rendas, bordados ou pedrarias, criado pela primeira mulher a ocupar o cargo de diretora criativa da maison francesa Givenchy, a britânica Clare Waight Keller. Usou poucas joias, maquiagem nada, deixando transparecer, inclusive, as manchas e sardas de seu rosto. Escolheu não dizer que prometeria obediencia ao marido, repetindo Lady Di na cerimônia de casamento com o príncipe Charles, e fez com que o príncipe Harry usasse alianças do mesmo jeito que ela usaria depois do sim. Os homens da família real não usam alianças após o casamento.

Michael Curry, o bispo norte-americano que roubou a cena

E teve mais: ela trouxe o bispo afro-americano Michael Curry para proferir um bonito sermão sobre o poder do amor, com citações a Martin Luther-King, ganhando a simpatia da capela britânica e elogios na internet. Colocou um coral de vozes negras, o Kingdom Choir, que cantou uma versão emocionante da música Stand By Me, de Ben E. King, comandado por uma mulher negra, e, ainda, apresentou ao mundo o violoncelista negro de 19 anos Sheku Kanneh-Mason, ao tocar no casamento.

Sem falar, claro, na lista de convidados que incluía, pela primeira vez, grandes nomes do showbiz internacional, como Oprah Winfrey, e os colegas de elenco de Meghan Markle da série Suits, que a catapultou ao sucesso. Tudo isso para dizer que não vimos só um casamento real. Vimos uma prova de que o mundo pode ser um lugar mais generoso, mais aberto à diversidade, com menos preconceitos e castas pré-definidas. Apesar de, claro, ter ainda a pompa e a fortuna gasta próprias de um casamento real, ao se pensar em realeza, teve bastante de um casamento real, quando se pensa em realidades possíveis e de um futuro mais aberto e otimista. E isso me deu um pontinha de esperança. Quem sabe, agora, o mundo não entende que chique no mundo contemporâneo é ser simples, e que isso não é o oposto de ser sofisticado, é ser misturado, sem deixar de lado as características culturais de cada um. Chique, em 2018, é acreditar no amor e fortalecer os laços deixando para trás os nós do passado. Que seja eterna enquanto dure essa esperança.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

A baiana Ju Ferrazcomeçou a carreira em Salvador como assessora de imprensa, até migrar para São Paulo, onde trabalhou em diversas empresas de comunicação, criando produtos editoriais exclusivos, projetos especiais de cross media e produção de eventos. Atualmente é diretora comercial, novos negócios e de relações públicas da Holding Clube. Mais do que uma executiva competente, com anos de experiência nas mais diversas plataformas, Ju é a mulher real que não tem medo de se jogar de cabeça em novos projetos e novas ideias ou de expor suas fraquezas. E mais: está longe de se transformar em uma figura idealizada descolada da realidade.

Sobre o blog

Um espaço para pensatas, conversas, divagações e troca de experiências sobre o que é ser mulher nos dias de hoje.