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Mulher real, Preta Gil conta sobre felicidade com o corpo: "Uma escolha"

Ju Ferraz

23/04/2018 11h18

De acordo com dados do IBGE, 40% da população brasileira tinha sobrepeso ou obesidade em 2002. Em 2013, o total subiu para aproximadamente 60%. Analisando estes dados, é um fato que a necessidade de se cuidar da alimentação e ter uma vida mais saudável é caso de saúde pública. Por isso, escolhi falar sobre a minha compulsão alimentar. Sim, meu nome é Juliana Ferraz e eu sou uma compulsiva alimentar diagnosticada e em tratamento. A compulsão alimentar é um distúrbio e não tem nada a ver com o fato de você exagerar em uma churrascaria ou comer demais aos finais de semana. A compulsão se caracteriza pela ingestão de uma grande quantidade de alimentos em um curto período de tempo, mesmo sem fome, com a sensação de perda de controle e muitas vezes comendo sozinho, escondido, por vergonha, até se sentir desconfortavelmente cheio.

É um assunto complexo e cheio de sutilezas, que ganha mais força e se torna mais fácil de ser falado e abordado em tempos de quebras de paradigmas e a decadência dos velhos padrões impostos dos corpos perfeitos. Com a democratização da internet e dos discursos, é cada vez mais comum ver mulheres com sobrepeso ou obesidade se tornando ícones da diversidade e das campanhas para o fim de padrões estéticos, e foi o que me fez olhar para mim de uma forma diferente.

Como toda mulher moderna e da vida real, tenho uma rotina insana, com muitas responsabilidades, e, por causa dessa pretensa falta de tempo, sempre deixei para lá essa relação pouco saudável que eu tinha com a comida e, por consequência, com a balança. Apesar de diagnosticada e em tratamento, com acompanhamento de um psiquiatra, isso ainda não está bem resolvido na minha vida. É uma busca incessante, não diria que é uma luta, pois em uma luta alguém sempre acaba machucado. E o que eu quero é o oposto disso. Quando descobri a compulsão, entendi que precisava ser mais inteligente do que essa armadilha que eu criei pra mim mesma.. E tem dado certo. Aos trancos e barrancos, tenho conseguido ser mais dona de mim, das minhas vontades e do meu corpo, que é a minha casa.

(Foto: Alex Santana)

Para me ajudar nesse caminho, resolvi conversar com Preta Gil e convidá-la para ser a primeira entrevistada deste meu espaço. E por que Preta? Primeiro porque ela é uma mulher real, forte, uma cantora admirável, empresária visionária, mãe determinada e avó exemplar. E mais do que isso, Preta é um exemplo de como ter uma relação saudável com você mesmo, e acima de tudo, de como lidar com a questão do peso de um jeito muito mais simples. Preta nos ensina todos os dias sobre como dar importância ao que realmente importa e hoje é uma mulher muito feliz, amada, realizada, empoderada, com 15 anos de carreira e bem resolvida com a imagem refletida no espelho. E, por isso, escolhi essa minha amiga de tantos anos, para dividir com ela minhas angústias e ouvir um pouco de suas experiências que, tenho certeza, vão ajudar a mim e a muita gente.

Ju Ferraz: Qual a sua primeira lembrança em relação a questões com seu corpo. A primeira vez que te fizeram bullying ou te disseram que vc tinha que emagrecer. E como se sentiu?
Preta Gil: Cresci em uma família onde cada um era como era e, sinceramente, não havia essa coisa de bullying em relação a corpo, cor, gostos. Vivi essa liberdade familiar e minha casa sempre foi frequentada por todo tipo de gente, era o "reino" da diferença e a personalidade de cada um era preservada e respeitada. As pessoas se assustam quando eu digo que não sofri bullying ou preconceito antes de me lançar como artista. Foi só ali que a coisa mudou e eu era tão desencanada que quis fazer uma capa do primeiro disco usando meu corpo como emblema, como identidade, pois eu acreditava que estava me entregando ao trabalho musical de corpo e alma.

Quando eu vi, meu corpo havia virado polêmica e isso foi bem quando meu pai virou ministro. Percebi que as pessoas que não são felizes se incomodam com quem é, as pessoas querem fazer você se sentir mal por suas escolhas, mas quem paga sua comida é você, quem paga suas contas é você. Foi até bom que isso aconteceu logo no início da minha carreira, pois, hoje, 15 anos depois, eu vejo que nada disso me incomoda mais e ainda me fortaleci com tudo isso. Comecei a cantar com quase 30 anos e boa parte da minha vida não teve esse patrulhamento, essa cobrança e tsunami de opiniões que cercam as chamadas pessoas públicas. Hoje eu vejo que chegou o tempo em que as pessoas estão tendo que respeitar mais as outras, pelo bem ou pelo mal. Tudo é sua cabeça e quando você opera com a consciência e não com as armadilhas do ego, você supera tudo.

Ju Ferraz: Você ja fez dietas, ja fez lipo, ja emagreceu bastante, qual o ensinamento que você tirou desses processos? O que aprendeu com as dietas e as cirurgias?
Preta Gil: Já fiz tudo, já emagreci 30 quilos, já vivi várias vezes o tal efeito sanfona, fiz cirurgias há mais de 13 anos, quando estrelei um programa de TV e me disseram que eu precisava emagrecer e eu caí na conversa. Não me arrependo e nada disso foi em vão ou precisa ser visto como algo absolutamente necessário. A vida é feita de fases, mas posso te dizer que a mudança é de dentro pra fora, quando você se ama, se sente amada, quando você mesmo é seu maior guia e incentivador, ninguém te tira do prumo.

Comer compulsivamente é como consumir, é a busca por algo que você acha que você não tem, algo que parece te faltar.
Então quando eu reduzi minhas expectativas em relação aos outros, quando eu mirei na saúde e não na estética, quando eu alcancei meu equilíbrio interno eu tirei de mim esse "bicho papão" que me colocava pra baixo e me dizia "seu corpo deveria ser assim ou assado", isso é ilusão. Ego é ilusão, consciência é a verdade.

(Foto: Alê de Souza)

Ju Ferraz: Você é sempre lembrada quando o assunto é o orgulho do próprio corpo. Você gosta desse cargo? Gosta de falar sobre o assunto? 
Preta Gil: Cargo? Isso não é cargo, é vida. Se eu não tiver orgulho de mim, ninguém terá mais do que eu. E não falo de estética, de corpo, de matéria, falo de estado de espírito. Espírito não envelhece, não se pesa, não é julgado. É em ser feliz e fazer feliz que a gente precisa focar e não em perder quilos a mais. Não me incomoda falar sobre o assunto, mas vamos combinar que todos, magros, gordos, velhos, novos, vamos morrer e nada disso terá importância, um dia. Eu como de tudo, mas tenho consciência do que estou fazendo, precisamos é tirar esse " capataz" da cabeça, uma voz que te diz " isso não pode, isso vai te engordar". Você mesmo é essa pessoa, já sabe a diferença de uma lasanha para uma sopa, não precisa sempre se condicionar a sofrer. Sabe que se correr, caminhar, se exercitar vai gastar calorias. Faz quem quer.

Ju Ferraz: Hoje é mais fácil se vestir, com algumas marcas fazendo peças inclusivas. Mas já passou perrengues ou saias justas em lojas e situações no universo da moda? 
Preta Gil: Sempre tive dificuldade de achar roupas, mas tenho amigos que desenham para mim, já inspirei coleções da C&A e do Victor Dzenk. É muito ruim chegar numa loja e ver que não tem roupa para seu tamanho, mas isso está mudando. Temos a moda "plus size", termo que não gosto muito, mas sem dúvidas é um avanço. Estamos em constante evolução e isso é bom.

Ju Ferraz: Que dica daria para uma pessoa como eu, que esta sempre em briga com a balança e que deixa isso afetar minha autoestima?
Preta Gil : Ai, para de brigar né? Você não está brigando com a balança, mas com você mesma. É isso que você quer para sua vida? Quanto mais você pensa em emagrecer você está dizendo para o cérebro "não quero engordar" e é isso que ele entende "engordar!!" Então pense em equilíbrio, pense em caminhar, respirar, pense em aprender receitas saudáveis, em fazer coisas gostosas. Procure encontrar os amigos, fazer coisas que te fazem bem, procure ajudar a quem precisa, visite quem você ama, faça coisas que te tire a balança desse pedestal. Ela não é sua inimiga ela é só um aparelho que pode medir seu peso, mas não pode te trazer felicidade. A felicidade é você quem produz com suas escolhas, inclusive do que pôe na sua geladeira, na sua casa, na sua cama…

Ju Ferraz: Como lidar com os xingamentos das redes sociais que nos chamam de palavras ofensivas sobre o nosso peso? Tem alguma dica, atém de bloquear e denunciar?
Preta Gil: Imagine o seguinte, se tiver um "apagão" ou se a rede social desaparecer, como já ocorreu com o "orkut", essa coisa toda não terá menor a importância. Se puder, delete, se quiser, responda, mas não perca tempo com quem não te traz nada, siga sua vida, viva seu dia e o lixo dos outros, será dos outros. Não traga isso para a sua vida. O virtual é virtual, e a vida real é real. Viva e deixe viver, quando a gente morrer nada disso terá sentido. Bora se amar !

Ju Ferraz: De que forma você gostaria de ser vista?
Preta Gil: Quero ser vista como uma pessoa normal como outra qualquer, que trabalha muito, mas gosta do que faz, que quer fazer o público se divertir e se respeitar. É isso que tento ser.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

A baiana Ju Ferrazcomeçou a carreira em Salvador como assessora de imprensa, até migrar para São Paulo, onde trabalhou em diversas empresas de comunicação, criando produtos editoriais exclusivos, projetos especiais de cross media e produção de eventos. Atualmente é diretora comercial, novos negócios e de relações públicas da Holding Clube. Mais do que uma executiva competente, com anos de experiência nas mais diversas plataformas, Ju é a mulher real que não tem medo de se jogar de cabeça em novos projetos e novas ideias ou de expor suas fraquezas. E mais: está longe de se transformar em uma figura idealizada descolada da realidade.

Sobre o blog

Um espaço para pensatas, conversas, divagações e troca de experiências sobre o que é ser mulher nos dias de hoje.