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Ju Ferraz

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As dores e as delícias de ser mãe de um adolescente no mundo atual

Ju Ferraz

15/05/2018 16h43

Nenhuma mãe está preparada para quando o filho entra na adolescência. Nem a mais respeitada psicóloga, nem a mais culta pedagoga e nem a mais preparada bióloga. Se nem elas, que estudam comportamento, funcionamento do corpo e a mente humana, conseguem se munir de ferramentas suficientes para lidar com o problema, imagina eu, uma executiva do mercado de entretenimento e comunicação, que precisa equilibrar a vida pessoal e profissional como uma malabarista na corda bamba, o susto que não leva quando percebe, enfim, que sua criança cresceu. Tenho um filho de 13 anos e quando ele nasceu eu tinha 23. Costumo sempre dizer que eu era uma criança cuidando de outra criança. Hoje, além de meu parceiro e meu melhor amigo, ele é um adolescente, cada dia mais inteligente e culto. A adolescência, aliás, se manifestou e foi esfregada na minha cara há bem pouco tempo. No susto, de supetão e eu me vi completamente despreparada, com um gosto amargo na boca.

Ainda me soa estranho dizer que ele é um adolescente, pois, para mim, ele ainda é um garoto, curioso, cheio de sonhos, aprendizados e ensinamentos. Dia desses, a gente estava na livraria e ele viu um livro sobre a ansiedade e quis ler – pois sabe a mãe ansiosa diagnosticada e em tratamento que tem. Quando eu tinha 13 anos, minha preocupação era o Chiclete com Banana, me divertir com minhas amigas e assim por diante. Já meu filho, aos 13 anos, quer saber o que acontece no mundo, se preocupa comigo, com o bem dos outros, quer se inteirar das novidades e… crescer. Por isso e por tudo, me preocupa, além de tentar fazer um universo melhor para ele, entender esse novo mundo que está surgindo.

Há alguns dias tomei conhecimento da morte do (da) estudante de gênero não-binário Matheusa, que foi assassinada no Rio de Janeiro simplesmente por existir. Me assustou a crueldade, claro, mas me assustou também não saber da existência dessa nomenclatura "não-binário", que, como descobri, são aquelas pessoas que não se identificam nem com o sexo masculino nem com o sexo feminino. Entendi ali, como nós, da minha geração, estamos defasados com as coisas que estão acontecendo muito rapidamente. Novos gêneros, novas nomenclaturas, novos comportamentos, novos normais, novas regras, um novo mundo se abre a cada momento. Não tenho, de verdade, nada contra a novidade, a evolução do mundo e da livre manifestação. As pessoas precisam ser felizes da forma que acharem que devem ser, sendo leais aos seus desejos e vontades, contanto, claro, que não cause nenhum dano a outra pessoa. O que me assusta é a forma como as questões, o medo e o preconceito com o diferente, com o novo, tem se tornado cada vez mais violento. Fico pensando, assim, no tipo de pai que fomos, que somos e que seremos, formando os novos cidadãos em meio a tanta nova informação, sendo que a gente não consegue acompanhar a velocidade das coisas.

É certo que amamos nossos filhos incondicionalmente, e que temos responsabilidade sobre eles, sobre sua conduta, postura, palavra, mas tenho visto esse cuidado cada vez mais escasso. O mais importante que eu acho é que o papel de pai e mãe tem de servir como bússola para a nova geração que vem aí, mostrando o que são os valores, as dificuldades, os perigos, o cuidado com nossas escolhas e deixar claro que toda escolha tem os dois lados. Temos que estar atentos aos novos códigos, ao novo mundo, pois se a gente não está atento, as nossas referências se perdem. E quando não há referência, é como se construíssemos uma casa sobre a areia. Na primeira onda, ela se vai. Ser pai de adolescente no mundo moderno é assumir a responsabilidade de ser concreto, de ser pilar, de ser coluna, de ser sustentação. Pois as ondas estão cada vez maiores e se a gente não ficar atento, tudo vai por água abaixo.

Sobre a autora

A baiana Ju Ferrazcomeçou a carreira em Salvador como assessora de imprensa, até migrar para São Paulo, onde trabalhou em diversas empresas de comunicação, criando produtos editoriais exclusivos, projetos especiais de cross media e produção de eventos. Atualmente é diretora comercial, novos negócios e de relações públicas da Holding Clube. Mais do que uma executiva competente, com anos de experiência nas mais diversas plataformas, Ju é a mulher real que não tem medo de se jogar de cabeça em novos projetos e novas ideias ou de expor suas fraquezas. E mais: está longe de se transformar em uma figura idealizada descolada da realidade.

Sobre o blog

Um espaço para pensatas, conversas, divagações e troca de experiências sobre o que é ser mulher nos dias de hoje.